maio 11, 2021

300 mil mortes por Covid-19 no Brasil: país atinge marca após ano de táticas fracassadas

Para especialistas que desenharam respostas iniciais à pandemia, falta de coordenação federal pesou na capacidade do país de frear o vírus


O Globo
Rafael Garcia


Um ano e sete dias após o registro da primeira morte por Covid-19, o Brasil chegou nesta quarta-feira (24) ao número de 300 mil mortes registradas pela doença. A marca foi atingida numa semana em que o governo federal empossou seu quarto ministro da Saúde e o número diário de óbitos ainda não dá sinal de arrefecer. A marca de óbitos foi alcançada na tarde desta quarta, apesar de o Ministério da Saúde ter modificado os critérios para contagem de óbitos, o que causou uma quebra abrupta nos registros de São Paulo. Na mesma tarde, a pasta recuou de decisão.

Desde o início de março, o país registra uma escalada brutal nas estatísticas de óbitos por coronavírus, tendo batido o recorde na noite de terça, com mais de 3.000 mortes sendo notificadas em 24 horas. Nesta tarde, o consórcio de veículos de imprensa que realiza monitoramento independente dos números da Covid-19 (O GLOBO, G1, UOL, Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo), indicou que o país já tem 300.015 pessoas mortas pela doença.

Ao longo dos últimos meses, especialistas criticaram o desempenho do governo federal, apontando-o como fator majoritário para o estabelecimento da situação de calamidade que a pandemia instalou no país.

Para entender o que poderia ter sido diferente na condução da resposta do Brasil à Covid-19, a reportagem conversou com dois especialistas que estavam participando da criação de políticas públicas no país e se viram boicotados ou ignorados pelo governo em suas recomendações.

SÃO PAULO REGISTRA MAIS DE MIL ÓBITOS POR COVID-19 EM APENAS UM DIA
1 de 6

Enterro no cemitério Vila Formosa, na Zona Leste de São Paulo. Estado totaliza quase 70 mil óbitos causados pelo coronavírus Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo
Enterro no cemitério Vila Formosa, na Zona Leste de São Paulo. Estado totaliza quase 70 mil óbitos causados pelo coronavírus Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo
Estado de São Paulo, um dos mais atingidos pela nova onda de contágio pelo novo coronavírus, registrou 1.021 novas mortes provocadas pela Covid-19 na terça-feira (23), um recorde em 24 horas desde o início da pandemia Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo
Estado de São Paulo, um dos mais atingidos pela nova onda de contágio pelo novo coronavírus, registrou 1.021 novas mortes provocadas pela Covid-19 na terça-feira (23), um recorde em 24 horas desde o início da pandemia Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo
Valas abertas para enterro no cemitério São Luiz, Zona Sul de São Paulo Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo
Valas abertas para enterro no cemitério São Luiz, Zona Sul de São Paulo Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo
Familiares se despendem de parente morto em decorrência da Covid-19 no cemitério Vila Formosa. Hospitais em colapso e cemitérios sobrecarregados Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Familiares se despendem de parente morto em decorrência da Covid-19 no cemitério Vila Formosa. Hospitais em colapso e cemitérios sobrecarregados Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Familiares carregam caixão de vítima da Covid-19 no cemitério Vila Formosa, Zona Leste de São Paulo Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo
Familiares carregam caixão de vítima da Covid-19 no cemitério Vila Formosa, Zona Leste de São Paulo Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo
PUBLICIDADE
Brasil atingiu nesta quarta-feira a marca de 300 mil mortes pela Covid-19 Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Brasil atingiu nesta quarta-feira a marca de 300 mil mortes pela Covid-19 Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Um deles foi o infectologista Júlio Croda, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e da Escola de Saúde Pública de Yale, e ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.

Croda desenhava a política de enfretamento da pandemia antes de se demitir, em 25 de março de 2020, quando o ministro da Saúde ainda era Luiz Henrique Mandetta. Ele afirma que o primeiro grande erro do presidente Jair Bolsonaro foi bloquear a adoção de uma política nacional de distanciamento social.

— Nós queríamos dividir o Brasil em regiões de saúde e ter desenvolvido indicadores epidemiológicos claros, que estariam associados com medidas restritivas a serem adotadas, de acordo com gravidade da incidência, ocupação de leitos, capacidade de testagem, capacidade de rastreamento de contatos e isolamento — conta o médico. — Isso não foi feito, e foi o grande motivo de eu ter saído do ministério.

Até hoje, o Planalto resiste a tomar para si a coordenação de medidas de distanciamento e até busca impedir governadores de fazê-lo. Segundo Croda, no atual momento da pandemia, seria essencial que essa mentalidade mudasse, mas ele diz não acreditar nessa possibilidade.

A resistência do presidente em usar máscara facial e preconizar seu uso, e a insistência em promover aglomerações, contra a recomendação de sanitaristas, ainda tem efeito na taxa de transmissão do vírus.

O Brasil diagnosticou até agora 12.183.338 pessoas com a Covid-19, e, nas últimas 20 horas, teve mais de 46.663 caosos registrados (incluindo os não letais).

Além da resistência a políticas de contenção da transmissão, outros problemas se manifestaram na condução da resposta à pandemia no país. Entre eles estão a gestão descuidada de aquisição de vacinas e de insumos médicos para o tratamento dos doentes graves de Covid-19.

— Estados e municípios não têm autonomia para esse tipo de aquisição quando existe falta dos produtos em escala nacional — diz Croda. — Como essa falta é generalizada, a coordenação para suprir essas necessidades deveria ser em nível federal.

Outra especialista que participava da elaboração de políticas públicas para a Covid-19 foi a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Unifersidade Federal do Espírito Santo, que era integrante do painel de consultores que subsidiavam o plano nacional de vacinação contra a Covid-19.

Quando o plano foi divulgado sem incluir as recomendações do grupo, Maciel foi uma das especialistas que alertaram sobre o distanciamento do projeto das recomendações dos especialistas.

Uma iniciativa mais precoce de negociação para a compra de vacinas, diz a epidemiologista, poderia ter colocado um contingente maior da população sob proteção antes da escalada brutal da nova onda da Covid-19 no país.

— Nós não chegamos a 300 mil mortos por acaso, nos chegamos a essa marca por uma incompetência da condução da crise sanitária no Brasil — diz Maciel, que desistiu de colaborar com o Ministério da Saúde. — Se o governo tivesse ouvido a ciência, teria feito aquele acordo com a Pfizer para 70 milhões de doses, teria feito o contrato com o Butantan mais cedo, teria ido atrás da Janssen, que desde cedo diziam ter uma vacina importante e estratégica, por ser de dose única — afirma a pesquisadora.

Segundo os números desta tarde, porém, apenas 2% da população brasileira já está plenamente imunizada, com duas doses, o que é pouco ainda para um efeito perceptível na velocidade da pandemia.

Croda, hoje trabalhando como consultor para os governos de São Paulo e do Amazonas, afirma que, aparentemente, a dinâmica da pandemia não tem sido bem explorada pelo Ministério da Saúde para planejamento.

— É preciso usar cálculos matemáticos dos números de casos graves para ver como a pandemia vai se comportar nos próximos dias e semanas. Mas eu não estou mais no ministério e não sei se estão fazendo isso de forma sistemática — afirma Croda. — Mas a gente sabe que foi cancelada em outubro passado uma aquisição de kits de intubação, que estão em falta agora. Se estivessem trabalhando nos modelos matemáticos e acreditassem nessas projeções, eles poderiam tem efetivado essas compras.

A marca de 300 mil atingida hoje já é 67% maior do que a projeção mais pessimista de Croda à época de sua atuação no ministério. Em março do ano passado, ele estimou que o Brasil poderia atingir 180 mil óbitos por Covid-19 até o início de uma campanha robusta de vacinação.

O epidemiologista Wanderson Oliveira, ex-secretário de vigilância em saúde no ministério, afirma que essa escala de mortalidade foi considerada um exagero.

— Esse número de 180 mil era inaceitável. Qualquer pessoa com o mínimo de espírito humano faria de tudo para para isso nao se concretizar — conta Oliveira, outro nome chave no desenho da resposta à Covid-19 no início da pandemia. — Para ultrapassar essa marca, teria que existir uma taxa de transmissão muito elevada, e essse taxa foi muito elevada dada a própria forma de condução da resposta à pandemia.

Oliveira foi outro técnico de carreira na pasta que pediu demissão, e foi demitido, num momento em que não via espaço para trabalhar adequadamente. Ele ajudou a desenhar o plano inicial de testagem para Covid-19 no país, que nunca foi adotado plenamente, e afirma que hoje o Brasil continua sem poder projetar o futuro da pandemia, porque aplica poucos diagnósticos. Isso impede epidemiologistas de estimarem com mais precisão a real dimensão da situação, e dificulta o trabalho de rastreamento de contatos e isolamento dos infectados.

— Para cada caso confirmado, fizemos de um a dois testes, enquanto o Chile faz 11, os EUA fazem 12, a Alemanha faz 17 e o Reino Unido, 20 — diz Oliveira. — Isso me leva a suspeitar que o número de casos positivos que nós temos esteja condicionado ao esgotamento da capacidade de testagem.

Por esse motivo, o epidemiologista afirma que o Brasil não pode repetir o erro de 2020, quando desmobilizou boa parte da infraestrutura médica para Covid-19 pressupondo que uma segunda onda de casos não viria. Este foi um erro que não se restringiu ao governo federal.

— É preciso que nao desativem leitos agora, quando começar a cair o número de casos, até que 70% da população alvo esteja vacinada — diz.

Erros do governo federal
Para o professor e infectologista, foi um erro o governo ter acreditado por tanto tempo que o país poderia ter atingido um estado de imunidade coletiva por meio de infecções naturais.

— O vírus sofreu mutações importantes, e a gente viu uma segunda onda terrível no Amazonas na primeira quinzena de janeiro — conta. — Naquele momento, a gente passou a ter certeza de que essa teoria da imunidade de rebanho não poderia permanecer.

Uma crença insustentável de que a disseminação do vírus, em vez da contenção, poderia ser positiva para o país, diz Croda, pode ter sido responsável por uma parcela importante das 300 mil mortes ocorridas até agora.

Para ele, o governo federal herdou muito da hostilidade que o ex-presidente dos EUA, Donald Trup, tinha em relação à OMS e à China, o que comprometeu a política local contra Covid-19.

Leia mais: Ao menos quatro pacientes que tomaram ‘kit-Covid’ aguardam transplante de fígado em hospitais de SP

Bolsonaro tem se mostrando mais amigável agora à ideia da vacinação em massa, ao menos em discurso, e o Ministério da Saúde tirou o pé do acelerador da política de promoção de medicamentos ineficazes contra a Covid-19.

Croda, porém, não crê que a mudança de mentalidade necessária para frear a pandemia esteja em curso, mesmo com a entrada do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

— Isso ainda não se traduziu numa recomendação ampla para as medidas de distanciamento social e numa campanha de comunicação mais ampla para adoção dessas medidas — diz o infectologista.

Para Ethel Maciel, da UFES, não foi só a gestão na área de Saúde que complicou a situação da pandemia.

— O Brasil teve uma condução desastrosa da pandemia desde o início, e uma raiz do problema foi o negacionismo do presidente da República e de membros do seu governo — diz Maciel. — A falta de condução da crise com competência não foi só na saúde, foi na educação, na economia, na assistência social. Estamos até agora sem auxílio emergencial aprovado em 2021, o que dificulta a adesão da população mais pobre às medidas de contenção contra o vírus.

Para Croda, a política de comunicação para Covid-19 foi uma das mais nocivas para o trabalho de combate à doença, porque sabotou tentativas de educar a população para o comportamento correto contra o vírus, incluindo o uso de máscara.

— Isso foi feito principalmente por meio de fake news nas redes sociais, com mensagens de desrecomendação das medidas apoiadas pela evidência científica e pela OMS. — afirma Croda, que vê nessa estratégia uma brecha para o governo tentar se eximir do erro. — Isso foi orquestrado por apoiadores do presidente. Em vez de campanha para informar, existia uma campanha para desinformar.